Valorização da atividade extrajudicial através da Gestão de Pessoas
Com o avanço da tecnologia, da inteligência artificial e da crescente digitalização de serviços, não foram poucas as vezes, desde 2010, que ouvi previsões alarmistas: “o cartório vai acabar”.
Que grande equívoco. O que tenho testemunhado, na verdade, é um processo sólido de transformação do extrajudicial. Serviços mais céleres, entregas mais cautelosas e eficazes, crescente integração com o meio digital, e uma importância cada vez maior no cotidiano do cidadão.
A atividade extrajudicial não apenas resistiu – ela evoluiu. Mas, nesse movimento de evolução, ainda há um ponto sensível, muitas vezes negligenciado: a gestão de pessoas dentro das serventias.
Num contexto pós-pandêmico, em que se tornou inegável a centralidade das relações humanas nas organizações, é notável como a maioria das serventias continuam investindo fortemente na excelência do atendimento ao cliente, no cumprimento de normas, na gestão documental e de riscos – tudo isso, sem dúvida, essencial.
Contudo, pouco se investe na valorização estratégica do capital humano, aquele que sustenta o cotidiano da serventia, que carrega a responsabilidade de lidar diretamente com o cidadão e traduzir, na prática, os valores da instituição.
Falo com a autoridade de quem viveu mais de duas décadas no atendimento ao público – sendo 11 anos dedicados à rotina de cartório extrajudicial. Reconheço o valor do rigor normativo, da eficiência processual e da qualidade do atendimento. Mas afirmo com convicção: não é possível sustentar a excelência da entrega sem uma cultura de valorização interna.
É comum observarmos, por exemplo, mudanças de gestão – com a assunção de um novo delegatário – resultando em desligamentos massivos, sem diálogo, sem avaliação prévia, sem plano de transição ou recolocação. Ações que impactam negativamente a moral interna e a imagem externa da serventia.
A VALORIZAÇÃO DA ATIVIDADE EXTRAJUDICIAL COMEÇA DE DENTRO PARA FORA
Para que a gestão de pessoas cumpra seu papel estratégico, ela precisa ir além de processos burocráticos e se tornar um eixo estruturante da cultura organizacional. Eis alguns pilares indispensáveis:
- Recrutamento e seleção estratégica:
Perfis de cargo claros e alinhados à missão da serventia, garantindo a contratação de pessoas com habilidades técnicas e comportamentais compatíveis;
- Treinamento e desenvolvimento contínuo:
Adoção de trilhas de aprendizagem, com planos individuais e coletivos de desenvolvimento, garantindo a evolução técnica, relacional e emocional das equipes;
- Avaliação de desempenho com feedbacks estruturados:
Ferramentas que gerem autoconhecimento, oportunidades de crescimento e reconhecimento justo;
- Remuneração estratégica:
Salários compatíveis, planos de carreira definidos, benefícios que dialoguem com as necessidades reais dos colaboradores;
- Comunicação interna eficaz:
Transparência, escuta ativa e coerência entre discurso e prática;
- Gestão humanizada de conflitos:
Abordagens mediadoras que promovam o respeito mútuo e o fortalecimento das relações;
- Cultura organizacional sólida:
Propósito, valores bem definidos e vivenciados, criando um ambiente motivador e de pertencimento.
Esses pilares não são meras formalidades – são estratégias de sustentabilidade institucional. Colaboradores engajados, bem preparados, reconhecidos e alinhados com os valores da serventia são o maior ativo que um cartório pode ter.
Eles não apenas entregam bons resultados: eles se tornam embaixadores da serventia perante a sociedade.
A forma como as serventias extrajudiciais será percebida na sociedade está diretamente ligada à forma como tratamos quem está dentro delas hoje.
Você, líder, está preparado para essa virada de chave? Seu cartório está apenas operando – ou está realmente se desenvolvendo como uma instituição sólida, humana e preparada para o amanhã?
A resposta começa na forma como você escolhe liderar. E a liderança que transforma começa pela escuta, pelo cuidado, e pelo compromisso com o crescimento de cada pessoa que constrói essa história ao seu lado.
Valorize de dentro para fora. Transforme pessoas. Transforme sua serventia.
Fonte: Jornal do Notário